19/09/2026

Duplo erro, sedento

Afins_José Lezama Lima · publicado em 19/09/2026

Duplo erro, sedento O erro compreende a sua figura no centro novo e na esfera nova. Duplo erro, sedento movem-se os números na parede da recordação exata e as boas-vindas. Risco novamente aquelas letras do convite com que amanheciam as nuvens novas e a dulcificada roda da tortura. Onde se alojaram os mistérios, as noites gêmeas e as coleções de ídolos perenes? A roda da poderosa nuvem imperial o parafuso já não golpeia as costas densas. O parafuso que rompe o mar em dois: os poderosos deuses abolidos e o presságio que toca e persegue. Gira a nuvem sob o sonho e ali investe contra novos reinos da pronunciada melodia. Depois do cordeiro recém-nascido sem perguntas na apaziguada prata, os impérios do carvão, os nebulosos paraísos sem proporção e justiça. Aqueles que esquecem que a elegância, veado alimentado de orvalho ou polpa de neve cortesã, é o ser iminente que penetra na nuvem central, o corpo da amêndoa: a soberania celestial do fogo em evasão. Fugia da terra grávida, sedento Marco Pólo entre carbúnculos, estabelecendo os limites do sonho vago. Acreditava que encontraria entre as rochas douradas o peixe ainda sonâmbulo e separado - única espécie de um metal vivo - da noite e a sua sombra dançante. Ali nas flautas a maldição nascente e a nova cidade do corpo em fúria, as pontes sombrias onde animais de canela destroem na noite as coleções de porcelana. Aberta ali, no instante em que a flor assimila e se une ao inseto, grandes pirâmides de orvalho o golpe que engendra o cravo. Ecos desabam, rumoroso presságio, recua a extensa coluna de um fogo trêmulo incha em ti, soluça o murmúrio, invoca a ternura dos véus da água. E as ninfas entre água e escuridão transbordam de graça e som, os seus mantos, os cabelos eternos diante do espelho, dizem: define-me, não é nos meus passos, é na estátua onde o tempo me devora e na areia que cai das mãos que está o tempo predileto, o único tempo criador sem o seu par e não o flanco sangrando até o crepúsculo, e à nossa frente: a estátua desconexa e um só centro . A cavalaria provoca um remoinho e se inclina à vista das águas não tocadas a lua o inseto, e o cavaleiro. O que declina à deriva até o centro. O nu se nutre dos seus vestígios. A lua, sonho duplo da lua vagarosa, desce tocando as folhas diante dos amantes. As folhas pintadas pelos címbalos do exílio fabricam a areia e deslocam a chuva!

Tradução: Jorge Henrique Bastos

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