O surrealismo tem sido a maçã
de fogo na árvore da sintaxe
O surrealismo tem sido a camélia de cinza entre os peitos da adolescente
possuída pelo espectro de Orestes
O surrealismo tem sido o prato de lentilhas que o olhar do filho pródigo
transforma em festim fumegante de rei canibal
O surrealismo tem sido o bálsamo de Ferrabrás que apaga os sinais do pecado
original e o umbigo da linguagem
O surrealismo tem sido a cusparada na hóstia e o cravo de dinamite no
confessionário e o abre-te sésamo das caixas de segurança e das grades dos
manicômios
O surrealismo tem sido a chama ébria que guia os passos do sonâmbulo que
caminha na ponta dos pés sobre o fio de sombra que traça a folha da guilhotina
no pescoço dos justiçados
O surrealismo tem sido o prego ardente na fronte do geômetra e o vento forte
que à meia-noite levanta o lençol das virgens
O surrealismo tem sido o pão selvagem que paralisa o ventre da Companhia de
Jesus até que a obriga a vomitar todos os seus gatos e seus diabos encarcerados
O surrealismo tem sido o punhado de sal que dissolve as velhas moedinhas do
realismo socialista
O surrealismo tem sido a coroa de papelão do crítico sem cabeça e a víbora
que desliza entre as pernas da mulher do crítico
O surrealismo tem sido a lepra do ocidente cristão e o açoite de nove cordas
que desenha o caminho de saída para outras terras e outras línguas e outras
almas sobre o lombo do nacionalismo embrutecido e embrutecedor
O surrealismo tem sido o discurso da criança soterrada em cada homem e a
aspersão de sílabas de leite de leoas sobre os ossos calcinados de Giordano
Bruno
O surrealismo tem sido as botas de sete léguas dos foragidos das prisões da
razão dialética e a tocha de Pulgarcito que corta os nós da trepadeira
venenosa que cobre os muros das revoluções petrificadas do século XX
O surrealismo tem sido isto e isto e isto
Tradução: Antônio Moura