Vi que os negros Vedas, o Evangelho e o Alcorão, mais os livros dos mongóis em suas tábuas de seda - como as mulheres calmucas todas as manhãs - ergueram juntos uma pira de poeira da estepe e odoroso estrume seco e sobre ela pousaram. Viúvas brancas veladas numa nuvem de fumo, apressavam o advento do livro único, cujas páginas maiores que o mar tremem como asas de borboletas safira, e há um marcador de seda no ponto onde o leitor parou os olhos. Os grandes rios com sua torrente azul: - o Volga, onde á noite celebram Rázin; - o Nilo amarelo, onde imprecam ao Sol; - o Yang-tze-kiang, onde há um denso lodo humano; - e tu, Mississípi, onde os ianques trajam calças de céu estrelado, enrolando as pernas nas estrelas; - e o Ganges, onde a gente escura são árvores de ciência; - e o Danúbio, onde em branco homens brancos de camisa branca pairam sobre a água; - e o Zambeze, onde a gente é mais negra que uma bota; - e o fogoso Obi, onde espancam o deus e o voltam de olhos para a parede quando comem iguarias gordurosas; - e o Tâmisa, no seu tédio cinza. O gênero humano é o leitor do livro. Na capa, o timbre do artífice - meu nome, em caracteres azuis. Porém tu lês levianamente; presta mais atenção: és por demais aéreo, nada levas a sério. Logo estarás lendo com fluência - lições de uma lei divina - estas cadeias de montanhas, estes mares imensos, este livro único, em cujas folhas salta a baleia quando a águia dobrando a página no canto desce sobre as ondas, mamas do mar, e repousa no leito do falcão marinho. 1920
Tradução: Haroldo de Campos